sexta-feira, janeiro 20, 2006

"Golden League"

Último dia de campanha... só me ocorre um sentimento: alívio! Estamos em campanha não oficial aberta e declarada desde Setembro, com Mário Soares, e desde Novembro, com Cavaco Silva. No entanto as candidaturas de Cavaco e Alegre fizeram capas de jornais e aberturas de telejornais nos últimos anos. Um exagero. Poderíamos esperar que tanto tempo de preparação levasse a uma sistematização das ideias, a novas perspectivas e projectos para o país, mas a realidade revela que o investimento é feito, essencialmente, na preparação da máquina de campanha. Essa é a outra eleição, a eleição-sombra, onde empresas e gurus da comunicação e marketing vêem na política o escaparate para novos sectores de negócio. Quando transparente compreendo e considero fundamental nos tempos que correm, no entanto considero que deverá ser sempre uma ferramenta, não a peça em si. É uma “golden league” à parte...
Como somos cada vez menos os que passam por este templo (mea-culpa!) e porque creio que o sentimento que transparece das linhas anteriores é mais ou menos generalizado, não vou entrar em grandes reflexões sobre os cenários eleitorais. De uma maneira ou de outra, já todos fizemos as nossas reflexões, mesmo que a indecisão nos vá consumindo até ao momento de colocar a cruz no boletim. Nessa altura ou votamos de protesto, em branco ou na oposição, ou votamos com clubite, no partido da família ou naquele com o qual estivemos sempre mais próximos.
Assim sendo, olhando para este frenesim de palavras e contactos das campanhas eleitorais, surgiu-me a metáfora mais comum: a corrida eleitoral! Daí ao atletismo é uma sprint de 100m. Imediatamente me ocorreu o nome de uma das provas mais importantes do atletismo mundial, a seguir aos Jogos Olímpicos e aos Mundiais, a Golden-League. O próprio nome é provocador e vai de encontro ao sentimento de muitos, da maioria, de quase todos os portugueses. O mais curioso é que na Golden-League os vencedores são premiados com barras de ouro, mas já não vou por aí...
Fica o registo dos atletas, quase todos veteranos com excepção da esperança Francisco Louçã, e qual o seu papel nesta prova de resistência sobre-humana:
Garcia Pereira: o maratonista
Honra lhe seja feita! Ninguém corre mais do ele. Ficará para a História como “Pheidippides do MRPP”. É a reencarnação desse combatente grego que, depois da batalha de Maratona, correu para Atenas para avisar da vitória gritando "Nós somos vencedores". Grita frequentemente a mesma expressão em relação aos trabalhadores e acredito que ainda corre em busca desse momento. Imagina-se no Estádio Nacional, no pódio, com a banda militar do Exército a tocar a Internacional. Agora não sei se isso será adequado a um maoísta... é melhor pensarmos já nisso para não gerarmos nenhum acidente diplomático. Será ainda organizador das corridas vermelhas destinadas a todos os gestores de multinancionais e empresas púbicas e privadas nacionais. Um evento ao nível das melhores nacionalizações do 25 de Abril.
Jerónimo e Louçã: os 3000 m obstáculos
O primeiro busca as televisões, mas elas não querem nada do seu clube, o segundo procura-as e elas aderem aos seus requintes técnicos, à forma como aborda os obstáculos e acelera os ritmos da corrida. Louçã é um atleta simpático que acolheu a participação africana de braços abertos nas competições internacionais, é recorrente ouvir-se-lhe a frase: Perdi, mas ainda bem que foi para um irmão marroquino. O público gosta do lado altruísta, mas também do lado rebelde com que ataca os atletas norte-americanos favorecidos pelo capitalismo canibal.
Jerónimo é o típico atleta da corrida de São Silvestre, saíndo de casa na noite de passagem de ano para ir correr com os camaradas que corriam à frente da PIDE, essa grande escola do meio fundo português. Troca uma medalha por uma fatia de broa com sardinha. Para além de atleta tem revelado uma enorme capacidade de gestão desportiva, à frente da associação recreativa de Pires-Coxe, a seguir com atenção na próxima maratona de Boston.

Mário Soares: a lebre
Assumiu este papel com enorme brilhantismo, procurando encurtar as distâncias para o líder andando num ritmo que já não é o seu e perante a indiferença do público. Desgastou o principal adversário com as suas corridas livres por todo o país. O seu trabalho nunca será devidamente valorizado pelo eventual segundo classificado, que considerará sempre que, depois do 25 de Abril, nunca houve nenhum atleta como ele próprio. A consolação do segundo lugar, a acontecer, será semelhante a um prémio carreira.
Alegre: o meio fundista
Partiu como os quenianos de outros tempos, descalços sobre o tartan, de equipamento pouco talhado para alta competição, mas com coração e risco marcou um ritmo estável, na esperança de chegar à finalíssima. Noutras circunstâncias, poderia mesmo ter sido um atleta de estafetas, assim tivesse Mário Soares passado o testemunho. Assumiu o estratégico papel de o melhor atleta do Portugal pós-25 de Abril. Comparável só as medalhas de Carlos Lopes, mas este é de direita, e Rosa Mota, mas esta é socialista apesar de ser do PS e para além disso sempre apoiou Mário Soares noutras corridas quando ele sempre foi contra...
Da sua participação nesta corrida ficam dados preocupantes, como o tempo que demorou a aquecer revelando ser homem para trajectos mais curtos e as perigosas divergências com as corridas do governo. Não perderia a hipótese de cravar os pitons ou pregos da sua sapatilha nos calcanhares do primeiro dos ministros.
Cavaco: o velocista
A figura esguia não engana. Passada larga ma trajecto curto que as corridas de outros tempos à muito foram trocadas pelas cadeiras da universidade. Foge das corridas maiores porque tem receio que as conversas com os jornalistas tenham de ter uma relação com o tamanho da prova, algo que já deveria ter sido desmentido por um dos seus múltiplos treinadores. Desconfio mesmo que a sua preparação tenha sido feita no centro de alta competição de Madrid, conjuntamente com Obikwelu, daí o cartaz de Soares... elementar meus caros. Uma das suas primeiras medidas será fazer um corredor entre Belém e a Ajuda e reallizar o 1.º Crosse Internacial Ajuda a Belém. Terá mesmo desenvolvido contactos com Carlos Móia, mas esse deve ser Soarista, o nome melhor colocado será João Lagos, homem com experiência em travessias do deserto e clubes falidos.

É só escolher... mas acredito que não seja fácil perante atletas desta estirpe!

1 comentário:

HumbertotheWizard disse...

À hora que estou a escrever este comentário, já sei quem venceu esta estridente e emotiva corrida, imprópria para cardíacos e que conheceu o velocista como o primeiro a cortar a meta. Cavaco Silva é profissional da governação, contráriamente ao que ele disse em campanha, já que houveram poucos politicos na nossa praça que levaram tão a sério a chamada politica ligada á causa dos cidadãos, uma vez que ele entendeu sempre colocar o bem estar das pessoas acima de todas as prioridades, seguindo assim o espirito legado por Sá Carneiro. Sem porém , haver sido um santo, foi sobretudo um politico competente e bem intencionado enquanto primeiro-ministro, estando contudo rodeado de gente mal intencionada e incompetente. Infelizmente, face aos interesses dos poderosos grupos politicos e económicos, e á influência determinante e incisiva dos lobies, viu-se na contingência de recuar em algumas da suas medidas, para tapar buracos que outros abriram. Cavaco idealizou modernizar Portugal, mas esqueceu-se que os governantes em Portugal costumam ser peões de um tabuleiro manietado por figuras de proa, na sombra dos bastidores. Resta perguntar se Cavaco conseguirá ter a força e sagacidade para ultrapassar a barreira dos lobies e da corrupção do compadrio, e juntamente com Sócrates conseguir abrir caminho ao desenvolvimento sustentado e progressivo de Portugal? Só não entendo é a posição deste povo, muito francamente, se ostracizaram e cruxificaram o professor nas urnas com Sampaio há dez anos atrás, porque o aclamam agora como herói nacional? Muitas felicidades para o Miguel Ângelo e para a sua Capela Sistina.
[Dominio dos Anjos]

p.s. passo na integra um comentário que na altura o sistema de comentários da Capela não permitiu.