terça-feira, dezembro 06, 2005

Porque é tão difícil votar num dos candidatos?



A resposta, na minha concepção, assenta em três tópicos fundamentais que depois se ramificam em alíneas particulares. A sua ordenação neste texto não possui nem valor crescente, nem valor descendente, isso tornaria a discussão ainda mais complexa.
Começamos então pela propalada personalização da política, que transporto para um conceito mais abrangente: identificação. De alguma forma, todos procuramos num político traços de convergência com a nossa própria maneira de estar e pensar a sociedade, com o nosso estilo de vida – o que temos e o que desejaríamos – que possua um estatuto intelectual, material ou profissional que o distinga doutros candidatos. Por mais completo que se afigure faltar-lhe-á sempre qualquer coisa, que assumirá contornos dramáticos na hora da escolha. Esta visão é particularmente perigosa e, em casos extremos, pode gerar um culto sebastiânico que revela sempre o advento de regimes autoritários.
O vazio é igualmente preocupante. A demissão do cidadão em escolher, em última instância, geraria uma corrente indecisionista. Ora, em política, pior que decidir mal é não decidir. O espaço vago da indecisão será sempre ocupado, geralmente por figuras ou ideologias marginais à democracia. A personalização da política e a sua correspondente identificação com o cidadão ou com as suas aspirações é um terreno fértil para o recrudescimento de ódios pelos sinais mais mesquinhos, gerando um extremismo na afirmação das fidelidades ou infedilidades para com o candidato. É sempre mais fácil fidelizarmos alguém a uma ideologia do que a uma pessoa. A continuidade de um projecto político também é mais facilmente assegurada quando existe uma qualquer argamassa ideológica que a sustente, em vez de alguns tijolos humanos. Aqui, quando falo de argamassa ideológica, não me refiro a esquerda ou direita, mas por exemplo às instituições e à sua utilidade como contraponto ao imediatismo da personalização da política onde os candidatos são preparados e lançados à semelhança de qualquer produto comercial, sem substância, mas com um belo invólucro.
Aproveito então para lançar outro tópico da maior relevância: a moral ou a moralidade. Aparece frequentemente na discussão política de qualquer candidato, na tentativa clara de sequestrar a moral individual de cada eleitor, refém que se encontra da necessidade da mudança, duma corrupção generalizada transversal a todo o espectro político. No já célebre somos todos iguais, entra a personalização mencionada e a moral de política puritana, vendida com grande eficácia no extremo da esquerda.
Naturalmente é verdade que a política sofre de todas as enfermidades de que sempre padeceu e talvez de mais algumas, mas a repetição exaustiva, por parte de candidatos que nada mais têm a oferecer, gera um movimento de afastamento entre o cidadão eleitor e o cidadão candidato. Como diz Innerarity “A moralização como arma de arremesso surge da desconfiança quanto à possibilidade de a política gerar por si própria uma cultura, umas regras justas” (2002, 74-5), ou ainda “A acção política implica sempre transigir. O uso continuado da linguagem dos princípios, do irrenunciável e do combate condena-se à frustração e ao autoritarismo ” (2002, 53). O mesmo autor refere também a existência de um “uso bélico da moral”, concordo, especialmente quando deparamos com as demonizações permanentes feitas da política. Afinal serão todos os cidadãos fontes de virtudes e exemplos de fraternidade, para que frequentemente punam os políticos com a sua indecisão assente numa suposta superioridade moral?
Até que ponto a capa da moralidade não esconde uma iliteracia política dos cidadãos? Quantos de nós não nos refugiamos no jargão anti-político para camuflarmos o nosso desconhecimento da Política? A ignorância, a iliteracia ou apenas o puro desconhecimento do seu funcionamento é outro dos factores que avanço para a nossa dificuldade em encontrar alguém que nos represente. A perspectiva irredutível como a encaramos revela-se redutora, pois não lhe permitimos concessões. A não admissão de concessões entre partidos e políticos é, precisamente, uma das razões para o seu fracasso. Não será isso que todos nós, enquanto eleitores, estamos a fazer? A política é gerir sob contingências, contextualizando e pesando as decisões, mas decidindo. Decidir implica conhecer, projectar e executar, tudo sequencial e consequencialmente, gerindo o risco, porque a política é um modo de acção sob condições de incerteza.
O desconhecimento da política deve-se tanto ao cidadão eleitor como ao cidadão candidato – a qualquer eleição – que se refugia frequentemente na colateralidade do conflito, exacerbando e instigando movimentos proteccionistas em relação ao seu trabalho e procurando desacreditar os críticos, não pela força dos argumentos que deveriam sustentar as suas decisões, mas pela imaturidade democrática assente na mentira e calúnia. O ataque ao cidadão participativo e crítico factual gera ainda mais distanciamento, em virtude da inconsequência das palavras daqueles que seriam os mais sábios ou doutos num assunto particular. Para além do mais são esses cidadãos mais activos que devem participar na vigilância da política, através de instituições externas ao poder político, como as provedorias, as organizações não-governamentais, os meios de comunicação social, etc. Deveriam ainda assumir um protagonismo pedagógico relativo ao conhecimento político pelo colectivo, de forma a suprir as lacunas de um sistema de ensino onde a educação cívica não assume um papel relevante. Se assim fosse seríamos mais a conhecer as palavras de Innerarity: “Os políticos fazem mal uma coisa que ninguém até hoje conseguiu fazer melhor que eles. Por isso, o resto dos mortais os despreza e, ao mesmo tempo, não consegue substituí-los” (2002, 55).
A encruzilhada em que hoje se encontram tantos eleitores só se esmorecerá quando os políticos, principalmente os candidatos reforçarem a sua credibilidade assumindo a política e não fugindo dela, denunciando e alterando as suas debilidades e principalmente tratando os eleitores com maior clareza e pedagogia e menos marketing e técnica de vendas. Fica um registo mais idealista, num texto que, enquanto autor, considero pragmático. A este propósito, a dúvida que me assalta neste momento do término é a seguinte: até que ponto este último parágrafo não se enquadra na perspectiva de que o problema da política é a gestão das expectativas que gera, principalmente o facto de esperarmos demasiado dela?

Obra citada:
Innerarity, Daniel (2002), A Transformação da Política, Lisboa: Editorial Teorema.

sábado, novembro 19, 2005

O último patamar da Gestão?


Nunca como agora se falou tanto em gestão. Pessoalmente rendi-me ao jargão e recorro com frequência. Talvez demasiada frequência. Todas as minhas áreas de aptidão profissional já levaram este “prefixo”. Gestão cultural, gestão do património, gestão documental, gestão da informação, gestão da mudança, mas nenhuma é tão apaixonante como a gestão do conhecimento. Correndo o risco de vulgarizar o conceito, imaginem a hipótese de pensarmos e implementarmos uma estratégia para gerir o conhecimento que cada um tem na sua mente. Já anteriormente houve sermão neste templo sobre asssuntos similares, no entanto a pergunta que se me coloca é extensível a todos os que me lêem: depois disto ainda é possível ir mais além quando se fala em gestão?
Esta versatilidade e transversalidade do conceito encarna um paradoxo interessante. Gestão implica uma racionalização na abordagem a conceitos, recursos, contexto e produção. Da razoabilidade da sua implementação depende o seu sucesso. O paradoxo, pelo menos aparente, prende-se com a extensão a domínios que anteriormente eram considerados intangíveis ou inatingíveis, como a intuição, as emoções e a inteligência. Poderá a razão ser aplicada em domínios como estes? Aquilo que percebemos todos, principalmente as grandes empresas que implementam estes conceitos como a panaceia para os males da competitividade, é que fazemos parte de um sistema mais complexo do que se poderia imaginar. Naturalmente o homem é parte integrante do sistema, mas aquilo que mais interessa, neste momento é o facto das actividades humanas possuírem entre si uma conexão tão forte. Perceber as dinâmicas em que se estabelecem é procurar compreender as respostas que tantas àreas carecem, gerando desenvolvimento. Gerir já não é só executar, projectar ou mandar. Gerir já é lidar, fomentar, motivar, aumentar, interpretar, mudar e arriscar. Talvez por isso todas as àreas comecem a perceber que existe uma vantagem competitiva em gerir com G grande. Para além disso, praticamente todas as áreas da nossa actividade carecem de financiamento ou sustentabilidade económica, isso implica conhecimento interno e externo e capacidade de acção, reacção e antecipação perante a mudança.
O Mundo não tem menos dinheiro. O que mudou é a muiltiplicidade de vias por onde circula e a quantidade de formas como é gasto ou investido. Até gastar implica conhecer.
Na informação o cenário presente já não se reporta à quantidade, nem à qualidade. Se a primeira nem sempre ouve, já a segunda não tenho dúvidas que esteve sempre presente. O cenário presente está ligado à acessibilidade, mas não da forma de “fim da História” como é apresentada pelos mais acirrados defensores das “novas tecnologias”. Poderemos comparar o impacto de uma nova tecnologia como foi a imprensa e estabelecer analogias com o Presente? Parece-me uma discussão estéril. O mesmo poderiámos referir relativamente ao conhecimento. Daremos nós maior importância ao conhecimento do que, por exemplo, as comunidades monásticas no período medieval? À escala da época o seu esforço é igualmente hercúleo. Neste caso a diferença é que o papel de repositório e transmissor era plenamente assumido, mas relativamente ao conhecimento partilhado pelo pergaminho ou criado para ser transmitido. O Presente não se contenta com isso, não aguenta esperar a etapa da criação e procura gerir o conhecimento ainda no interior da nossa mente. A antecipação pode ser impura na forma, mas aproveitável no conteúdo. Como sabemos todos: “Tempo é dinheiro”. Apesar de nos dias que correm até isto está a ser questionado!
O capital intelectual gerado por uma estratégia eficaz de gestão do conhecimento é uma vantagem que empresas, governos e instituições diversas não podem descurar. O Futuro alimenta-se de conceitos estimulantes, mesmo que alguns insistam em antecipar cenários catastrofistas, onde a gestão seja ultrapassada por formas tirânicas de submissão. Por mais ténue que possa parecer essa fronteira, se o Homem sempre tivesse pensado dessa forma ainda não mereceríamos os dois sapiens que nos designam.

sexta-feira, novembro 11, 2005

No meio dos extremos está o meu lugar

Na vaga de pessimismo nacional que nos assola vai para décadas, nas declarações de falência e de arresto que passamos a nós próprios todos os dias, nasce a contra-proposta mobilizadora para Portugal: Não somos assim; Temos futuro, desde que assim o queiramos enquanto povo.
O visionarismo de economistas e especialistas em finanças públicas, por mais iluminadas que sejam as suas palavras, revela uma dificuldade crónica de nos perceber enquanto povo. O centracionismo do discurso político na crise económica, que por enquanto ainda não nos atingiu, provoca este sentimento de país a saque, em que todos afirmam, notícia após notícia, que o último a sair, pelo menos feche, a porta. Cépticos, pessimistas têm voz e palavras, nas televisões e imprensa, com crítica fácil, ataque aos políticos, empresários, funcionários públicos, etc. Como todo o movimento massificado desperta sempre uma via oposta, também Portugal assiste desconfiado a uma vaga de luso-optimismo que procura inverter este ambiente soturno, descrente, mas principalmente, gravosamente despreocupado. Adaptando, descontextualizando, as palavras de Hanah Arendt: “Sob um estado de terror a maior parte das pessoas obedecerá, mas algumas não o farão” . Assim acredito, mesmo que a minha crença sea desprovida da força da filosofia e da delícia do conceito de “Amor Mundi” defendido pela mesma pensadora.
Antropomorfomizando o país, Portugal precisa de alguém que o pense desta forma, de alguém que crie um “Amor Luso”, que não seja um exilado da esperança, um refugiado da convicção. Portugal precisa de quem acredite. Não de optimistas inveterados, que se refugiam na esperança de que o Futuro não pode ser pior que o Presente. O país precisa de moderação.
Moderação, no sentido de equilíbrio, sem amorfismos, com a dinâmica que permita perceber que o futuro do país passa tanto pelos números contabilísticos, como pela conversa de psicanálise, pela aprendizagem, pela abertura de horizontes internos e externos. A moderação pode ser intrínseca enquanto característica de personalidade, mas no sentido, quase político-social que refiro, só se consegue através de duas formas: a primeira é a Educação; a segunda é a Justiça.
Enquanto assim não for quem ouve as palavras de optimistas lúcidos como Sobrinho Simões? “Nós como povo somos imbatíveis” – disse-lo no seu tom sereno, em onda média, mal captada por tantos portugueses. Não grita, porque a verdade sempre se revela, mesmo que demore tempo. Falou de investigação nos vinhos, na medicina, em tecnologia de ponta, pairando sempre a ideia de que Portugal é um país capaz. Capaz de o ser e de se fazer. Numa vanguarda enraízada também naquilo que fomos.
Sem comparações com o Prémio Pessoa de 2002, é este o lugar onde quero estar. É este o lugar onde acredito que se pode mudar Portugal, mudando nós próprios o nosso quotidiano, onde por mais críticas que possamos fazer durante o dia, no final o balanço tem de ser sempre de esperança. Um país que mude e se renove é a melhor forma de acelerar as mudanças de que o regime enfraquecido carece. Sem fantasmas, sem receios de vizinhos peninsulares ou ameaças intercontinentais. O Mundo, acima de tudo, continua a ser o lugar onde prevalecem os mais aptos, acima dos maiores ou mais fortes, os moderados em detrimento dos fundamentalistas. É neste sentido que devemos caminhar.
Não estamos falidos, nem estamos ricos. Não estamos no caos, nem precisamos de autoritarismos. Não estamos na ignorância, nem somos cultos. Assim sendo não precisamos de vagas de fundo de salvadores e opinadores, mas apenas que todos nós, no nosso dia-a-dia façamos melhor, vencendo a mediocridade e a inveja.
No meio dos extremos está o meu lugar. E o vosso?

sábado, novembro 05, 2005

A Política Técnica

"Conhecimento" Ne Barros


Como pode um discurso político baseado em princípios ou conceitos aclamados como estruturais, não parecer inócuo e desprovido de valor? Apenas quando são acompanhados de projectos de execução. Verdadeiros projectos, com definição de recursos humanos e logísticos, e o indispensável financiamento. Seria essa a Política Técnica a que o título se refere, quando tal não acontece, quanto muito podemos ter alguma técnica da política. Também indispensável, mas apenas como ferramenta de implementação e desenvolvimento da política virada para o quotidiano e para as perspectivas estratégicas. É no domínio estratégico que coloco o exemplo que serve de referência a este texto.
As palavras da Ministra da Cultura no IV Seminário Internacional dos Arquivos de Tradição Ibérica, que decorreu na Torre do Tombo, revelam que princípios com alguma implantação entre os profissionais da área finalmente passam a fazer parte do léxico dos gabinetes ministeriais. É a técnica política a funcionar não apenas na área em apreço, mas como realidade transversal aos mais diversos sectores. Qualquer coisa do género: “Quando falares para técnicos mostra o pouco que sabes, não reveles o muito que desconheces programando a execução do que proclamas”. As palavras são minhas, mas o conteúdo é da cartilha. Poderá ser esta a explicação para que nenhum político nos convença quando fala da nossa àrea profissional.
Não poderia ser excepção. Quando a ministra da Cultura fala da gestão de património histórico e de Informação/Arquivos, a minha sensação é a mesma. Um enunciado de princípios fundadores não faz a prática, ou melhor, as “boas práticas” políticas.
Merecerá este assunto ser debatido, ainda para mais quando neste blog sempre se procurou não martirizar leitores, com as importâncias da vida profissional? Serão vocês os juízes.
Pessoalmente acredito que sim e para todos aqueles que duvidam da força desta convicção, a melhor forma de colocar a questão é a seguinte: em qualquer organização a informação é o sangue que a faz viver, uma má gestão da informação e das suas práticas arquivísticas, terá o mesmo efeito que uma doença cardiovascular num qualquer ser humano. Poderá não sucumbir de imediato, mas certamente definhará perante a necessidade de recorrer à matéria a partir da qual sobrevive. Sem dar demasiada importância à crueza das palavras a analogia reflecte a realidade e funciona tanto para uma empresa como para o Estado.
Diz a nossa ministra, mais centrada nos arquivos, que estes são “efectivos recursos de informação”, e os seus profissionais “devem orientar a sua actividade para os clientes e utilizadores em lugar de centrarem toda a sua actividade nos documentos”. Continua referindo que o objectivo – não quantificado – passa por conseguir “uma aproximação às entidades produtoras da documentação, no sentido de influenciar a implementação de boas práticas na gestão dos documentos”, sendo “necessário implementar uma política facilitadora de boas práticas de gestão integrada dos arquivos ao longo de todo o seu ciclo de vida”. Sábias palavras, assentes numa realidade que em contornos largos é a seguinte:
- Numa análise aos arquivos intermédios de entidades públicas foram detectados 700 km de documentação sem qualquer tipo de tratamento arquivístico! Apesar da força deste número, convém referir que apenas 40% das entidades públicas apresentaram os seus dados. Logo podemos concluir que a realidade é ainda mais gravosa. Uma intervenção de fundo implicaria custos financeiros avultados, no entanto, neste momento, o Estado português gasta cerca de 1 milhão de euros mensais no arrendamento de espaços de depósitos para essas enormes massas documentais. Uma grande parte dessa documentação, caso existissem soluções de gestão documental e práticas arquivísticas, poderiam ser eliminadas.
- O próprio Estado infringe a sua própria Lei, quando Direcções-gerais dos mais variados ministérios não possuem uma Portaria de Avaliação. Se existissem, todos os serviços, desde que devidamento informados, poderiam gerir a sua documentação enviando para arquivo apenas a documentação com valor legal ou importante pela sua informação histórica. Em paralelo investiam cada vez mais em soluções tecnológicas com o objectivo de acabara com a utilização do papel nas suas organizações.
- Total incapacidade de resposta do orgnismo público responsável pela aprovação das referidas Portarias e pela definição da política arquivística nacional, em fornecer respostas em tempo útil para as organizações que deles dependem. Levando a que hoje a Torre do Tombo seja mais uma ignição do problema do que a resposta que todos anseiam.
- Os Arquivos distritais são estruturas asfixiadas financeiramente e sem imaginação para mudar o estado preocupante em que se encontram. Os arquivos municipais, como quase tudo o que está ligado às autarquias, dependem do grau de conscencialização dos autarcas para dinâmicas tão distantes como a dos arquivos e informação. Logo por aí podemos perceber o cenário, apesar dos avanços em algumas autarquias.Poderia continuar a discorrer sobre a realidade até me tornar ainda mais fastidioso, mas aquilo que fica é a necessidade que a política técnica se sobreponha à técnica da política e que efectivamente se implementem as “boas práticas”.

domingo, outubro 23, 2005

A modernidade da Política


Modernidade e Política são palavras aparentemente incompatíveis, em parte devido a um postulado solidamente implantado na consciência colectiva. A velocidade do Mundo há muito não é acompanhada pela da Política. Por este blog têm passado muitas opiniões referindo-se ao mundo empresarial como o exemplo de onde brotam as melhores práticas. Se tivéssemos de escolher um sector da nossa sociedade que servisse de referência muitos falariam da economia, em geral, e, em particular, das empresas. Muito interessante poderia ser uma resposta alternativa ou acopulada, que outros forneceriam: a Ciência.
Naturalmente, nestas linhas faço conjecturas, à laia de ensaio empírico, mas um estudo científico poderia fornecer resultados que certamente seriam surpreendentes.
As últimas décadas têm sido de proveitoso desenvolvimento científico e tecnológico com alterações verdadeiramente significativas e transversais à sociedade, que hoje assume a pomposa designação de conhecimento. Na verdade sempre o foi, a posse do conheciemnto foi disputada, controlada e difundida ao longo da História. A diferença é que nunca, na teoria, foi possível a tantos de nós atingirem a estratosfera do saber como o é actualmente. No seguimento desta evolução radical, expressão que prefiro a revolução, surgiram novas economias que, por momentos, viram nas soluções tecnológicas a resolução dos problemas da velha economia. No entanto, à medida que se investiam somas astronómicas na investigação e desenvolvimento científico e tecnológico, cedo o Mundo percebeu que as vantagens competitivas da tecnologia seriam democráticas e não permitiriam fazer a diferenciação pela positiva nas suas economias. Quem o poderia fazer? As pessoas. A era da mão-de-obra industrial deixou de ser, a partir deste momento, a referência laboral e competitiva. Desenvolvem-se correntes em áreas extaordinariamente interessantes, com as quais sempre convivemos, mas para as quais nunca tivemos uma resposta cientifica que permitisse desenvolver pedagogias.
Sempre o Mundo esteve atento à inteligência, nas suas formas tradicionais, aplicada às letras, às artes, à ciência. Os seus expoentes eram requisitados como elementos úteis para o puro prazer e deleite dos privilegiados, mas também eles comuns mortais.
Actualmente, gestores, cientistas, psicólogos, gestores de talentos, desmultiplicaram a inteligència em campos aparentemente distintos, mas do seu equilíbrio nasce a referência. Surge por exemplo a inteligência emocional e a inteligência intuiva. O saber cumulativo de dossiers, papers, projectos e artigos de referência vêem o seu predomínio ser assaltado pela vaga do conhecimento que o nosso cérebro foi arquivando ao longo da nossa vida. Aqueles que melhor partido tiram do seu inconsciente adaptativo, nas palavras dre Malcom Galdwell, possuem uma vantagem que transforma a intuição numa forma de antecipar resoluções e decisões que só mais tarde poderiam ser fundamentadas racionalmente.
Ora se este é um conceito – inteligência intuitiva – que cresce nas empresas e organizações de referência como um dos sinais de vanguarda e inovação, então poderemos afirmar que a nunca a Política deixou de estar no limiar da modernidade. Em que outra àrea da nossa civilização a tomada de decisões ainda é efectuada de forma tão empírica e baseada em instintos, estereótipos, arquétipos ou “impressões”? Quantos de nós não incluímos imediatamente políticos na nossa lista negra baseada numa primeira impressão?
Deveremos desconfiar do nosso instinto ou da nossa inteligência intuitiva? Certamente que não. Aquilo que acrescento a este conceito é uma reserva consciente. Creio que o conceito não existe, pelos menos com esta terminologia, mas é algo que gosto de seguir na minha vida. Confiar na primeira impressão, mas reservando espaço para a consciência, nas posse de mais informação, fundamentar ou não a opinião. Como em diversas áreas da nossa vivência quotidiana, também o juízo político deve ser alimentado e trabalhado tendo como referência estes conceitos.

Cavaco Silva é candidato

Desfez-se o tabu. Mais um. Cavaco assumiu a sua candidatura e fê-lo ao seu melhor estilo. Independente, sóbrio e com a autoridade que nasce da responsabilidade. Não entrou em discursos apagógicos, antecipando evenutais críticas e esvaziando-as de conteúdo. Poderia ter começado por justificar, defenitivamente, porque demorou tanto tempo a tornar pública a sua decisão. Creio que fez muito bem, isso é apenas um facto paralelo, ruído, como se diz actualmente. A mensagem implicava um providencialismo que Cavaco gosta particularmente, assim como Soares, uma vontade de se afirmar como o português anti-resignação, inconformado e competente. Na verdade Cavaco reune essas qualidades e faz delas o seu trunfo e consegue que superem as suas fragilidades que se tornariam letais em políticos com limitações técnicas. No discurso fala sempre de Economia, essa é a sua especialidade. No contacto humano é seco, pois a naturalidade e a simpatia não são as marcas que o referenciam para a maioria dos portugueses. A exposição mediática é reservada e programada ao milímetro e tem sempre presente a ideia de que a comunicação social é uma ondulação que facilmente se transforma um tsunami. Cavaco não quer ser o fenómeno, esse será o seu discurso e, principalmente, a sua acção político. Esta é uma diferença significativa para Mário Soares.
À medida que vou escrevendo estas linhas estão a ser divulgadas as primeira peças da comunicação política de Cavaco Silva. Cartazes com a bandeira nacional, sem o laranja do PSD, e um slogan que será este: Precisamos de Si. O “Si” seremos todos nós eleitores, mas também o Si(lva), Cavaco. Que melhor imagem e slogan para personalizar aquilo que acabei de escrever!?
Dando pouco cavaco, aí está o mais que provável candidato a Presidente da República. Tem feito tudo bem, manteve o seu eleitorado fiel, mas ao mesmo tempo assume-se como o único candidato transversal ao nosso roteiro político. Confere umacompetência técnica em período de estagnação económica e ataca aquele que é o maior receio de muitos portugueses. Será ele presidente para destituir o Governo? Ninguém melhor do que eu sabe qual a importância da estabilidade para o desenvolvimento do país. Está dito. O professor não afirma duas vezes, n ão precisa, nem os portugueses esperam isso, talvez seja por isso que tantos gostam dele. Dos eleitores de Valentim Loureiro aos professores universitários e quadros de empresa, há uma argamassa que os une a Cavaco Silva, mesmo que em tudo o resto se escave uma diferença abissal.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Marques Mendes, palmo a palmo


Bem sei que em Portugal ninguém é preconceituoso. Não ligamos a deficiências físicas, compreendemos e facilitamos a integração de pessoas com deficiências cognitivas, naturalmente não será a altura de um homem que irá condicionar a nossa apreciação. Certo? Talvez… E se estiver a falar de Marques Mendes?
Admitam que não houve pelo menos um neurónio dessas mentes que teve esta reacção: “então mas este tipo vai falar desse meia-leca?”.
Thimothy Judge e Daniel Cable, professores catedráticos de universidades americanas, analisaram os dados de quatro grandes estudos em que recolheram informação diversa sobre o percurso de milhares de pessoas, desde o seu nascimento até à idade adulta. Surpreendentemente descobriram que 2,5 cm de altura se traduziam em mais de 789 dólares de proveitos anuais! Demonstram que existe um arquétipo ou estereótipo na sociedade que tende a valorizar a altura. Judge formula a teoria de que essa tendência pode advir de tempos remotos da evolução humana, quando na savana a altura era característica indispensável para uma liderança forte.
[Permitam-me o à parte, mas, talvez por Portugal ser pequeno, o meu metro e quase noventa, tem-me valido de pouco!!]
Voltando à refrega… Marques Mendes viverá sempre com isso e naturalmente com a sua personalidade que fez dele um homem, daquilo que se convencionou designar de aparelho. Não o é no sentido geral da expressão, mas é verdade que sempre assumiu cargos governativos e parlamentares, que esteve ao lado de todos os líderes à excepção, conveniente, de Pedro Santana Lopes. Os motivos foram e são evidentes.
No entanto Marques Mendes, na convencionalidade do seu percurso, produziu algumas das comunicações mais estimulantes em congressos do PSD e assume como líder da oposição a liderança no combate à política jardinista, que abunda em Portugal e na qual o seu partido é um dos principais responsáveis.
José Sócrates dá uma no cravo e outra na ferradura – entenda-se: retira as subvenções vitalícias e nomeia amigos para cargos de administração em empresas públicas – o actual líder do PSD enfrenta alguns barões do seu próprio partido e coloca-se na mira desses franco-atiradores, caso conquistem as câmaras a que concorrem. Como qualque político a moralidade que apregoa não percorre todo o percurso do arco-íris... há sempre uma ilha atlântica onde o líder do partido não toca e faz questão de fazer tábua rasa do que diz no continente.
Apesar disso, tem, neste momento, uma legitimidade única para chegar a Felgueiras e bradar contra a personificação do descaramento da nossa Justiça, nas figuras de Fátima Felgueiras e de parte da população estigmatizada na insalubridade da democracia local. Marques Mendes exigiu a presença de José Sócrates em Felgueiras para que também protestasse e esclarecesse as dúvidas que pairam no ar. Sócrates não o fará, mas o discurso da credibilidade e do optimismo do país poderia passar pelo baixar da defesa do politicamente correcto.
A legislação tem de mudar e a forma de actuação da justiça é inaceitável. Marques Mendes percebeu-o e fez da Justiça uma das suas bandeiras. Propôs um de regime sobre a matéria, que é apenas uma forma recorrente em Portugal de os líderes partidários assumirem uma postura responsável e uma forma de lançar um isco a um governo maioritário, na esperança de conseguir um peso político que não tem.
Ninguém o ouviu. Porquê? Porque o país está analisado do Minho ao Algarve e da Estremadura à Beira Alta. Até existem alguns projectos, mas há esta incapacidade de um partido na oposição fazer mais do que falar alto e criticar, criticar.
Depois porque ninguém o ouve por ser baixo, por ter uma dicção peculiar e ser unanimemente considerado um líder a (curto) prazo. Dois anos antes das próximas eleições legislativas poderá ter concorrência feroz, caso a situação piore para o PS. De alguma forma, a estabilização do governo do PS poderia ser uma forma de Mendes conseguir calar uma silenciosa oposição por mais algum tempo.
Marcelo Rebelo de Sousa também foi líder numa conjuntura complicada e conseguiu algumas das mais retumbantes vitórias estratégicas do PSD – referendos da regionalização e IVG e revisão constitucional – mas ninguém o ouvia! Chamavam-lhe a “picareta falante”. No presente é vê-lo no papel de consciência crítica da nação.
Marques Mendes não atinge a dimensão intelectual e as capacidades de comunicação de Marcelo, mas, à sua escala (sem metáfora), ainda havemos de o ouvir com uma atenção que não lhe concedemos actualmente, mas nessa altura estará novamente como presidente da bancada do grupo parlamentar do PSD. O que poderemos dizer então? Palmo a palmo chegou lá e pelo menos tentou...

terça-feira, setembro 27, 2005

Ainda há comunismo?


Assume-se o confronto do título com base na observação daqueles que são considerados como os guardiões da ortodoxia ideológica. Suscita-me esta reflexão a minha incompreensão perante as palavras e atitudes de Jerónimo de Sousa na sua visita à Auto-Europa. Manifesta Jerónimo a sua preocupação pelo facto dessa mesma fábrica ter perdido a possibilidade de construir mais um modelo da Volkswagen. Pensava que o comunista, apesar do direito à sua nacionalidade, defendia o ser humano pela sua essência e não pela sua pátria. Por isso me espanto que ao dizer o que disse, Jerónimo de Sousa se tenha esquecido dos direitos que os trabalhadores alemães tiveram de abdicar para continuarem a trabalhar. A direcção da Volkswagen perante a possibilidade de construir o modelo em Portugal, com custos muito mais baixos, forçou os trabalhadores alemães a produzirem o veículo com um custo de menos de 860 €! Provavelmente Portugal foi até uma importante forma de pressão estratégica.
Não foi Jerónimo que quis accionar a cláusula de salvaguarda para proteger a indústria têxtil nacional da invasão chinesa (esses comunistas dissidentes)? Será a invenção de um comunismo nacionalista ou apenas uma incapacidade manifesta de apresentar uma solução global? Valem menos os direitos de um alemão que os de um português? A célebre coerência ideológica de Cunhal espalha-se assim pelas refregas eleitorais pedintes e carentes do afecto popular.
Durante muito tempo a resposta do comunismo foi a paridade humana, uma forma igualitária de encarar os problemas da humanidade, isso permitia-lhe ser encarada como uma resposta ou ambição em qualquer parte do Mundo. Neste momento ficamos a saber, pela voz dos comunistas, que o Governo deveria ter feito mais para a Auto-Europa produzir um modelo que estava destinado a ser concebido por trabalhadores alemães. Talvez o Governo devesse criar uma excepção ao baixar o IVA, subsidiar a iniciativa privada, ou ajudar a reduzir ainda mais os custos da produção, por exemplo com despedimentos colectivos!
Em paralelo desenvolve-se na Europa uma “nova” extrema esquerda europeia, que tem como melhor exemplo os resultados em Portugal e Alemanha. Reflecte uma realidade bem mais reactiva do que progressista, ao contrário do que muitos dos seus mentores afirmam. Há qualquer coisa de muito verosímil na visão metafórica e irónica que a identifica como a “esquerda caviar”. Poderia ela existir sem o liberalismo dominante? A sua própria composição é uma massa heterógenea, uma amálgama de conflitos teóricos, desalentos e incompreensões quanto ao rumo da civilização.
Estaremos nós a assistir á morte das ideologias na forma como foram concebidas até aqui?
Potenciais respostas como a célebre “Terceira Via” de Giddens e Blair, preconiza uma estratégia política que não se restringe às políticas embaladas e convenientemente separadas entre Direita e Esquerda. A “Terceira Via” tem uma estruturação pouco consistente e trata-se de uma derivação ou fusão de conceitos, que funciona em Inglaterra, mas não me parece um modelo de exportação directa para outras realidades nacionais. Fica a pergunta no ar: Será o vazio ideológico ou é apenas uma forma de racionalizar a acção política ao desenvolvimento tecnológico das últimas duas décadas?
Estou mais perto da última hipótese. O mundo requer respostas mais ágeis e flexíveis, transversais e não compartimentadas. O Mundo não se resume à economia, mas a economia resume muito do Mundo. E a verdade é que o pensamento e a actuação política não estão a conseguir acompanhar essa dinâmica económico-empresarial. Concordo com o meu amigo Cristóvão – no comentário ao texto anterior – que as melhores práticas nascem nas empresas, naquelas que são casos de estudo mundial, não nas do Vale do Ave.
Aqui assenta o problema do comunismo e até de algum socialismo, sucedem-se as análises à realidade, mais ou menos parciais, mas não existe uma resposta ou alternativa, pelo menos uma que seja exequível. Adensa o pântano em vez de dissipar o nevoeiro. Esta incapacidade é mais gritante quando alguns dos princípios fundamentais ainda conseguiriam ser cativantes para uma faixa importante da população. O fracasso da aplicação política nos países do Leste, a derivação chinesa, o isolamento de algumas ilhas, são factores que geram uma relutância difícil de travar. No entanto, quando nos apressamos a massacrar o comunismo como uma ideologia ultrapassada, o que de facto em muitas coisas já acontece, não nos estaremos a esquecer de que a modernidade que lhe era adjacente está longe de estar conseguida? O Mundo continua a ser um local injusto e onde os homens não são iguais no acesso ao fundamental, mas não considero que o comunismo seja a solução. Apesar disso, custa-me que não exista, que se fragmente, e perca noção dos princípios fundamentais. Jerónimo de Sousa, o guardião do templo, num momento revelador sob pressão eleitoral, deixou patente como é incerto o até amanhã dos camaradas.

terça-feira, setembro 20, 2005

Uma certa iliteracia europeia

O rapto de Europa de Rubens
Os resultados nas eleições legislativas na Alemanha são mais um ponto na confirmação da ideia que tenho vindo a congeminar, não querendo com isto assumir a paternidade de um conceito que anda na boca de muita gente. Desenvolvendo o contexto, à uns meses atrás Merkel era a virtual vencedora por maioria absoluta, no entanto, o cenário pós-eleitoral revela uma realidade bem distinta. Uma vitória tão pequena foi para a CDU uma derrota. O principal motivo desta montanha russa eleitoral, para além da extraordinária combatividade de Schroëder, foi a radicalização das reformas económicas anunciadas por Merkel. A sua necessidade é transversal, todos os sectores sociais as conhecem, o voto pendeu para o cenário mais cor de rosa. Nos últimos tempos o SPD sofreu a bom sofrer com reformas importantes na Segurança Social, no mercado de trabalho, nos cortes do subsídio de desemprego, no entanto perante o medo de tempos ainda mais difíceis as pessoas votaram nos sacrifícios que já conhecem.
Aqui entra esta tendência europeia de cidadãos proteccionistas dos seus direitos e com menor capacidade de enfrentar os problemas comparativamente a outros países mundiais. Os governos e os especialistas conhecem os problemas, procuram aplicar as soluções, mas sempre que atingem alguns direitos considerados inalienáveis, os cidadãos e no cumprimento do seu direito castigam os autores das ousadias, no entanto não se inibem de clamar pela necessidade de estar na vanguarda da economia mundial.
A Europa e os europeus não podem esperar que deixando o tempo correr, sem reformas que acompanhem as tendências mundiais, as vantagens do modelo europeu se sobreponham a todas as outras. O Mundo é um projecto a médio prazo, porque no longo já não existimos nós e o curto é aquele que vivemos. Para vivermos melhor no médio prazo temos de perceber que o mundo mudou radicalmente nas últimas décadas e que os países que não o perceberam, como Portugal, vão demorar mais umas décadas a apanhar o comboio da frente. A Europa central e do Sul ainda possui um mercado de trabalho muito centrado em competências industriais que não conseguem fazer frente aos tigres asiáticos que produzem num ritmo e competitividade imparável. Nos próximos anos será assim até que alguma vez a cidadania e ânsia democrática conquistem um peso que não existe nesses países.
Sabemos que a alternativa para a Europa é tornar-se mais competitiva, para isso precisará de pessoas qualificadas, mas a regeneração do mercado de trabalho demora décadas. O director do IEFP fala em 50 anos para o caso português! O que faremos nesse período, temos de ir trilhando um caminho mais árduo para que esse mercado de trabalho qualificado seja o impulso que vamos trilhando.
O caminho árduo também é conhecido, cortar a dependência das economias europeias face ao Estado, tornar o sector mais privado e dinâmico, flexibilizar o mercado de trabalho e assumirmos perante o Mundo a postura de que temos de ir à luta. Se queremos ter sucesso vamos ter de ganhá-la. Soa a capitalismo puro... bem sei. Mas esta é a engrenagem na qual o Mundo se movimenta e os cidadãos terão de ser os primeiros a perceber isso, não podendo ficar enfeudados em privilégios ou direitos que só são garantidos se puderem ser pagos! Só é possível distribuir quando existe.
A única forma de o poder fazer é termos a coragem de encarar e participar no Mundo que existe. De alguma maneira temos de adaptarmo-nos e percebermos que temos vantagens competitivas face aos países emergentes: sistemas bancários e de seguros fiáveis, sistema monetário estável, estabilidade social, maior nível de educação, etc. No entanto, em alguns sectores teremos de trabalhar mais e em quase todos temos de implementar uma cultura do valor.
As leituras das eleições da Alemanha demonstram essa incapacidade da Europa se encontrar e escolher um caminho claro para o seu futuro.

quarta-feira, setembro 07, 2005

A Ilusão do “El País”

Depois de um sábio concelho do meu pai sobre a imperiosa necessidade de ler o dossier do El País sobre a conjuntura portuguesa, o mínimo que posso fazer é agradecer-lhe! Os textos escritos por Margarida Pinto – uma portuguesa, presumo – são um retrato fiel e muito completo. Por lá desfilam economistas, pensadores e políticos. O Verão queimado é apenas o ponto de partida e a candidatura de Mário Soares o culminar.
Ganhando embalagem na recordação do artigo faço uma pequena provocação: o providencialismo de que Mário Soares gosta de encarnar mais do que a cura é o sintoma da nossa doença. Será?
Voltando ao texto... Portugal merece uma coluna do editorial que acaba num tom positivo, afirmando que o país se desenvolveu bastante apesar do abandono do mundo rural e que aos portugueses apenas falta recuperar uma coisa: a ilusão.
Estou de acordo quase na totalidade. No entanto, a questão é saber como nasce a ilusão... Só poderá nascer de um projecto, eventualmente de uma ideia, de um conceito. Será que temos alguma no Presente? Creio que sim, mas não está desenvolvida de forma a que possa atingir essa aura de ilusão e consequentemente de esperança.
A nossa ilusão terá de ser o Futuro, das novas tecnologias e de novos territórios:
As novas tecnologias e o conhecimento são a argamassa e as fundações do desenvolvimento para países da nossa dimensão. Todos o sabemos, até os políticos já o perceberam começando a tomar algumas medidas importantes, mas a evolução passa por uma assimilação cultural do conhecimento científico como prioridade incontornável;
Novos territórios, principalmente atlânticos, continentais como o Brasil, mas principalmente o Atlântico, o Mar; Há ainda, dentro de portas a valorização ambiental e económica da paisagem rural abandonada.
Um país não se limita a uma ou duas utopias, mesmo que sejam estratégicas, a sua existência não invalida que a indústria continue a produzir produtos de referência nos têxteis, na cerâmica, na maquinaria; que o turismo continue a vender o sol e mar. Nem tudo na economia é valor acrescentado, há também muito de subsistência.
A ilusão será sempre aquilo que nos motiva e nos empurra para um patamar superior à normalidade. O que somos hoje, não nos permite fazer isso, como diz José Gil, os portugueses andam susceptíveis, pequenos factos assumem proporções gigantescas e geralmente dramáticas. Há uma valorização excessiva do acessório enquanto referencial do que somos enquanto país. Não somos assim tão maus, nem assim tão pequenos, querem ver um exemplo? Desfolhando mais umas páginas do mesmo jornal reparem no que encontrei: uma reportagem sobre a música do Mundo com Marisa como primeiro destaque; reportagem sobre gastronomia nas famílias da Austrália, entre os produtos da mesa de uma das famílias, está o Mateus Rosé; na entrevista ao presidente da Pioneer fala-se da fábrica do grupo em Portugal cuja competitividade actual terá de ser mantida e aumentada, vejam o que o mesmo senhor diz sobre a França nas citações que coloquei na barra lateral; Peter Swatman da Climate Change Control define Portugal e Espanha como uma prioridade para essa instituição financeira. O Mundo e o nosso lugar não está claro, mas a permanente visão do abismo só nos acelerará a dar o passo em frente. Não se esqueçam que há muitos que afirmam: “Portugal, the first global village”. Impressionante não é?

quinta-feira, setembro 01, 2005

Um ano sobre Beslan

“Desenho o terrorista e queimo-o por todas as crianças que morreram na escola. Eu quero vingar-me em todos aqueles que mataram aquelas crianças”
Laima Torchinova, 9 anos

“Sinto dor. E também raiva. Desde essa altura, que quero vingar a morte do Oleg. Se fosse presidente, ordenava-lhes que me enviassem os terroristas desarmados e eu, com as minhas próprias mãos, usando uma faca, cortava-lhes a garganta”.
Chermen Bugunob, 7 anos

São citações de uma pungência extraordinária e que caracterizam bem o tamanho e a intensidade da tragédia que presenciámos no ano anterior. Três dias de cerco e um dia final de holocausto: 171 crianças e mais de 200 adultos. Para o futuro fica uma geração ameaçada emocionalmente, incapaz de perceber os objectivos das forças em confronto. O ódio aos terroristas passou a ser um direito inalienável, sem espaço para qualquer forma pacífica de entendimento ou resolução do problema. O objectivo é claro, extirpar o mal antes que ele cresça e qualquer dia sejamos obrigados a sentarmo-nos à mesa com aqueles que nos ameaçam. Vladimir Putin continuava o seu plano de restaurar a autoridade vertical, repondo hierarquias piramidais, controlando e dominando o país, não com mão de ferro, mas com uma mão de aço inoxidável, duradoura e permanente. O carácter impedioso como lida com os “danos colaterais”, entenda-se vítimas e suas famílias, revela um frio calculismo e a intolerância a contestações. Frio calculismo porque Putin está disposto a aceitar as vítimas que decorrem da afirmação da Rússia como potência mundial e da sua entronização na liderança. Putin não aceita que terroristas que ameaçam a soberania do estado que comanda escapem do destino que imediatamente lhes traça. Só assim se explica a barbaridade das tropas especiais russas no ataque ao teatro de Moscovo e às escolas de Beslan.
Igualmente inaceitável são as manifestações de discórdia com as posições oficiais do Kremlin, quer seja o patrão da super-poderosa Yukos, quer seja a mãe de um dos marinheiros falecidos no Kursk (sedada em directo na televisão quando chorava e lamentava a morte do filho), ou os familiares das vítimas de Moscovo e Beslan.
Com uma humanidade e uma dignidade que nos arrepia, a mães de Beslan pediram ao presidente russo que não fosse às cerimónias. Do Kremlin veio a resposta que faz da política um sinónimo de cinismo. O presidente estava disposto a recebê-las. Quase todas o recusaram lamentando o facto de, durante um ano, nunca o presidente ter aceite essa pretensão. As que aceitaram o convite vão porque não querem perder a oportunidade de manifestar o seu pesar e tentar perceber o porquê do inquérito à intervenção das forças russas nunca ter sido concluído.
Um ano depois, Beslan tem duas novas escolas que substituem a anterior, Putin continua presidente, não houve mais ataques terroristas daquela dimensão na Rússia, mas pelos sinais que nos chegam de tantos lugares do Mundo a questão do terrorismo veio para ficar. Na minha opinião há um facto incontornável na luta contra o terrorismo, apesar de talvez ainda ser algo prematuro. O vazio político em que assenta o terrorismo terá de ser o campo de batalha. A vertente bélica continua a ser o único argumento que faz o terrorismo crescer. O vazio nunca se esconde será sempre demasiado gritante. É esse o grito que as populações descontentes que o apoiam têm de ouvir, de forma a que sintam que ali não está uma resposta, apenas mais um milhão de perguntas.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Genius “Harry”

Vi, na noite de ontem, o filme que me faltava da filmografia de Clint Eastwood: Million Dollar Baby. Soltem-se os lugares comuns... É um filme extraordinário! A obra-prima, em paralelo com Mystic River.
Eastwood é herdeiro de uma tradição cinematográfica norte-americana da qual gosto muito. A tradição de fazer grandes files a partir de temas comuns. De alguma forma, todos os seus filmes reinventam argumentos ou temáticas que se repetem consecutivamente na produção massificada de entretenimento de Hollywood. A diferença é que os seus filmes, para além de interpretações excepcionais, carregam uma densidade e ambiência emocional contida, mas sempre prestes a explodir, sem que isso nunca realmente aconteça. Por muitos dos filmes em que participou como actor foi conotado com uma imagem frívola, de durão, mas que não passava num cinema mais erudito. Puro engano! Para além de um profundo amor pelo Jazz (pelo qual tem feito muito), o seu cinema parte do quotidiano de Hollywood e mexe com ele de uma forma que poucos realizadores conseguem.
Eastwood revela aquilo que mais admiro nos Estados Unidos da América: a genialidade descomplexada, despida de erudições ornamentais. Poderá ser apenas o célebre conceito do mundo da gestão empresarial a saltar para a 7.ª arte... KISS (Keep it simple stupid).

sábado, agosto 27, 2005

Verão em Portugal


A nuvem de fumo que encobriu Portugal

A tragédia só assim se afigura quando é excepcional, ocasional, imprevista, quando pode ser combatida e prevenida assume-se como incúria, incompetência, desmazelo e irresponsabilidade.
É isso que somos... todos.
Pouco mais quero acrescentar a tudo aquilo que tem sido dito, escrito e olhado. Aos directos televisivos histriónicos e vácuos, proponho que olhem para esta imagem da forma como olhei, durante uns segundos apenas. Não se trata do nevoeiro sebastiânico que nos trará a providência, mas o macabro espectáculo estival que nos assalta a paz anualmente, devastando vidas e espaços e tornando o nosso tempo uma penitência permanente com esta visão do inferno.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Redoma Política

Um dos aspectos mais preocupantes do sistema político, não só em Portugal, é esta espécie de redoma em que a política se deixa envolver. Poderíamos ainda chamá-la de submundo, mas essa é uma expressão que tem uma conotação ilícita demasiado intensa para a mensagem que procuro transmitir. A redoma leva a que a Política e os seus actores se e encarcerem nessa redoma, de maneira a que consigam protecção contra qualquer intempérie do mundo exterior. Quanto mais o fazem, mais as suas próprias regras se implantam e mais o resto do mundo se afasta deles.
Podemos mentir, ser cobardes, desonestos e sê-lo apenas por um segundo, mas quando o somos... somos como um todo. Não existe mentira sentimental, desonestidade financeira. Fomos e pronto. Essa mancha atinge-nos na integridade. Na política as regras são diferentes! Todos os dias o jargão faz-se ouvir: “O Sr. foi desonesto politicamente” ou “revelou uma grande cobardia política” e ainda “o Sr. é uma fraude política”. Parece que toda a ofensa, toda a acusação, quando leva o “sufixo” político perde a dimensão que persiste no mundo fora dessa redoma.
São as regras do jogo dizem uns, para outros são apenas exemplos do estado a que chegou a política. Para mim é apenas a demissão de uma política com ideias, princípios e principalmente de respeito pelas mais elementares tradições humanistas. A política é dura, assim como as críticas que dela nascem, mas a mediocridade reinante faz com que uma subversão social, como esta, se espalhe como uma pandemia e generalize a incapacidade da sua cura! Compete-nos a nós tapar esta redoma com um capa moralista ou, pelo contrário, forçar a sua abertura. Não podemos criticar e comentar: “sou um desinteressado político”, sem esperar que os nossos direitos de cidadania se ressintam disso.

terça-feira, agosto 16, 2005

Fogo e Areia


Pedro e Inês de José Aurélio

Depois do texto sobre a requalificação de Alcobaça este é o timing ideal para deixar neste espaço uma recomendação para todos os que gostam de aqui passar para reflectir em letra grande comigo. A coragem de falar, de pensar, de ser livre, é a coragem de criar. Mesmo que não seja arte, como a de José Aurélio. Para mim é isso que representa a escultura de José Aurélio. É assim que o encaro. Livre. Bem sei que hoje ser livre não é uma qualidade que empolgue as massas, envolve mesmo algum lirismo, mas pessoalmente continuo a querer ser livre. Eu, que nunca fui outra coisa.
Depois, José Aurélio tem outra coisa que admiro: cria. Também não é empolgante! Os tempos são de produção em série e a arte é equiparada à decoração de interiores ou ao carimbo de espaços públicos. Admiro a sua arte também pelo incómodo. Um incómodo inato à inteligência, à fundamentação estética, e à visão do criador como um material da arquitectura do Mundo. Este também não será grande elogio, os tempos que correm não são de incomodar, mas de acomodar. No entanto, ele é livre e cria. Cria a obra, mas não a limita quanto à sua compreensão, pois guarda uma parte do seu tempo para ums preciosos minutos de conversa comigo ou com outra pessoa qualquer. Quando se é, não se precisa de parecer.
Posto isto, deixem-me por uma vez parecer o sacerdote deste templo e repicar os sinos. Repicar até todos aparecerem na Galeria Nova Ogiva, em Óbidos para a exposição "Fogo e Areia". Sejam livres... talvez voltem com vontade de criar.

segunda-feira, agosto 15, 2005

25 anos do "Solidariedade"



À 25 anos nasceu, na Polónia, o primeiro sindicato independente no antigo bloco soviético.
A 14 de Agosto eclodiraram em Gdansk tensões políticas e económicas. Os trabalhadores do navio Lenin entraram em greve, dando início a um Verão de discórdia. O símbolo e as cores do Solidariedade são hoje universais, apenas a sua figura principal, Lech Walesa, suplanta a força destas letras e cores.

quinta-feira, agosto 11, 2005

Novo texto na capeladodesterro

Convido os amigos leitores a passarem pela capeladodesterro para uma última leitura de expiação sobre o corrosivo tema das obras de requalificação do Rossio, em Alcobaça. Para os que não são nativos desta localidade aconselho na mesma leitura, pois este trata-se verdadeiramente de um caso de estudo sobre a incapacidade de gestão da mudança e a gestão de danos, agora que a obra está feita.
Agradeço os comentários. Como sabem, nesta capela não há heresias, desde que se fale a verdade. Não há censuras e a política só é importante quando è a opinião de qualquer um de nós.
Passem por lá que o pregador é o mesmo.

sábado, agosto 06, 2005

1945 9/8


A explosão em Nagasaki

Como certamente pouco se vai falar de Nagasaki, a capelasistina não deixará que a memória seja dominada apenas por Hiroshima. Para além do mais, por que para nós portugueses existem alguns factores marginais à tragédia que também não serão revelados e me parecem interessantes.
Portugal está relacionado com o facto de falarmos mais de Hiroshima do que de Nagasaki. Ambas foram explosões devastadoras, mas a geografia de Nagasaki de alguma forma delimitou o impacto horizontal da explosão. Aqui poderá ter entrado a influência de Portugal no decurso da História... mas como? Nagasaki é uma cidade costeira, um pouco como algumas portuguesas, que aproveita os terrenos montanhosos virados para a baía. Os portugueses, primeiros ocidentais a manterem relações comerciais com o Japão, terão ecolhido este local para fundar uma cidade que servisse os nossos propósitos comerciais. Escolheram o local por ser junto a um porto e a cidade creseceu encosta acima... todo o português gosta de poder ver o mar.
Ao contrário de Hisroshima onde os planos horizontais permitiram que a devastação atingisse 140 mil pessoas, em Nagasaki morreram 70 mil pessoas. Seria bom que Portugal fosse mais activo e que estivesse presente na homenagem às vítimas. Como admirador do Japão e da sua cultura gostaria muito que alguém em Portugal olhasse para Oriente. Enquanto isso não acontece, as nossas tragédias vão sendo sempre maiores que todas as outras...

1945 6/8

A devastação em Hiroshima

O medo atómico nasceu há 60 anos. Só depois desta tragédia onde morreram 140 mil pessoas o Mundo tomou a verdadeira noção do impacto e do poder atómico. Como todas as grandes descobertas da Ciência tem aplicações positivas, mas não impediu que o belicismo que grassa entre nós olhasse a ameaça atómica como a esperança atómica. As relações internacionais mudaram radicalmente e a esperança de uns em se tornarem poderosos virou ameaça para aqueles que já o são.
A crescente evolução do nuclear no sentido de diminuição das escalas de investimento e equipamento faz crescer o receio no Mundo. Já não é necessário um mega-bombardeiro ou uma mega-bomba para espalhar a devastação...

quinta-feira, agosto 04, 2005

A CAIXA

Sucedem-se episódos na gestão política portuguesa que nos devem deixar a todos francamente preocupados e, até mesmo, indignados. José Sócrates continua as suas nomeações, para administrações de empresas públicas, de pessoas com reconhecida competência técnica. Na primeira linha está naturalmente Fernando Gomes, homem com um profundo conhecimento do sector energético e principalmente dos combustíveis fósseis. Cuidado Patrick Monteiro de Barros! Gomes ficou espantado com o convite, mas não o recusou... Não vamos ser mais papistas que o Papa, um convite daqueles seria sempre difícil de recusar!
Na continuidade surgiu o nome de Armando Vara nomeado ontem para administração da Caixa. Mais um fortíssimo currículum técnico: deputado por isto, candidato por aquilo, secretário de algo, ministro de tal. Uma sucessão de cargos que culminam com a chegada à administração da Caixa Geral de Depósitos, da qual foi trabalhador (?) mais de 20 anos. Não se indignem com o ponto de interrogação a seguir ao trabalhador, Armando Vara tem qualidades, mas tenho dúvidas que as tenha aplicado na Caixa, pois esteve sempre destacado para cargos políticos.
Para além destes nomes temos outros... como Luís Nazaré, que tem tanto de competência técnica como tem de cata-vento político. Percebem a ideia?!
No caso da administração da Caixa o que me parece mais grave é a hipótese de um governo ter substituído os gestores porque estes estavam em desacordo com a sua política. A Caixa terá recusado financiar o programa de investimentos prioritários, cometendo assim a heresia de contrariar a orientação da política económica do governo. Mau sinal. A gestão de empresas com capital público deve ser clara e transparente e possuir uma estratégia própria, virada para o mercado. A sua estratégia não pode ser confundida com a do seu accionista maioritário: o Estado. Estas medidas destabilizam as empresas ou entidades bancárias, desgastam o executivo e cansam a opinião pública que não se revê nesta política.
Com tudo isto não percebo porque gastam tanto os governos em acessores e gabinetes de imprensa ou de comunicação. Para quê? Se todas as boas e justas medidas que possam fazer irão ser subjugadas a estas decisões que geram a revolta entre os cidadãos. O mais grave é que os partidos conhecem o descontentamento que provocam e continuam a praticá-las. Isso é que me preocupa. O que leva alguém a tomar uma medida sabendo que terá um efeito muito prejudicial na sua actuação?
José Sócrates até pode querer fazer tudo certinho, mas não podem ser só as reformas no sector público. A moralização começa no interior dos partidos, do seu partido.